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Alta do juro e escassez de recursos para financiamento reduzem mercado imobiliário
Um dos setores mais favorecidos pelo ciclo de crescimento atravessado pelo país nos últimos anos, a construção civil sofre agora um abalo em dois de seus principais pilares. A retração da economia e a percepção de que o desemprego tende a subir minam a confiança de quem ainda poderia se animar a adquirir a casa própria. Ao mesmo tempo, o sistema financeiro vive um momento oposto ao do passado recente, com crédito restrito e juro mais alto.
Com a redução na quantidade de empreendimentos previstos para serem construídos, o reflexo é imediato no mercado de trabalho — que chegou a sofrer com um apagão de mão de obra. Conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, também nos últimos 12 meses finalizados em março, a construção civil fechou 10,3 mil vagas com carteira assinada no Rio Grande do Sul.
Na Região Sul, o Estado foi o único com fechamento de oportunidades no primeiro trimestre do ano — com 1.298 a menos.
Com as estruturas que sustentam a atividade comprometidas, os números exibidos pela construção deixaram a exuberância no passado. Na Capital, as vendas de imóveis novos caíram 13,73% nos últimos 12 meses encerrados em março, mostram as estatísticas do Sindicato das Indústrias da Construção Civil no Estado do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS). Os lançamentos também recuaram. No mesmo período de um ano, a queda chegou a 46,93% ante o intervalo anterior.
Proposta para ampliar valor utilizado do FGTS
O setor agora tenta negociar com o governo federal uma saída para melhorar a oferta de crédito, também mais enxuta em razão dos saques recordes na poupança — recurso tradicionalmente usado — devido à procura por investimentos com melhor remuneração. Primeiro, foi tentada a liberação de compulsórios recolhidos por bancos, o que poderia representar injeção de até R$ 40 milhões, mas a alternativa foi vetada pela equipe econômica por contrariar o aperto monetário para tentar conter a inflação.
Outra possibilidade seria ampliar o valor limite financiado pelos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), hoje em R$ 190 mil para Porto Alegre, por exemplo. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) teve um encontro semana passada com a cúpula do Banco Central e do Ministério da Fazenda, mas saiu da reunião com as mãos abanando. No curto prazo, não há perspectiva de melhora do mercado, avalia o presidente do Sinduscon-RS, Ricardo Sessegolo.
— Não poderíamos perder esses dois fatores ao mesmo tempo. Se somarmos a baixa confiança com a falta de crédito, vamos mais para baixo — alerta Sessegolo.
Para o presidente do Creci-RS (entidade dos corretores), Flavio Koch, o mercado a passos lentos é reflexo da decisão mais demorada dos clientes em função da incerteza política e econômica do país, o que leva os empresários a também segurarem os lançamentos. Mesmo assim, o cenário não é tão assustador, avalia Koch. Para ele, o momento de superaquecimento do setor, há alguns anos, também não foi saudável e levou a contratempos como a demora para compradores receberem seus imóveis devido a problemas como falta de material de construção.
— Já passei por muitas crises e elas são superadas em um prazo não tão longo quanto se imagina — avalia.
NÚMERO
Os saques superaram os depósitos na poupança no mês passado em R$ 5,85 bilhões, o pior resultado para abril na série iniciada em 1995.
Valorização abaixo da inflação
Com o mercado retraído, os preços dos imóveis também deixaram para trás o período de valorização galopante que chegou a gerar o temor — refutado pela maioria dos especialistas — de uma bolha imobiliária no país. Compilado com a observação de 20 cidades brasileiras, o Índice FipeZap mostra que, nos quatro primeiros meses do ano, a variação dos valores, de 1,08%, ficou abaixo da inflação do período medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 4,56%. Em Porto Alegre, o índice subiu menos ainda, apenas 0,9%. A tendência, assinala o diretor-presidente do site, Eduardo Schaeffer, é que o índice encerre o ano subindo abaixo da inflação, mas em algumas praças o tombo pode ser maior.
— Em algumas regiões, haverá queda nominal de preços no acumulado do ano de até 5% — projeta Schaeffer, lembrando que o índice se refere apenas a móveis residenciais e usados.
Recuperação de preços, estima, só a partir de meados do próximo ano. Uma das situações que mais preocupa é a da Caixa. Além da falta de recursos para emprestar, este mês começaram a valer os limites menores para o crédito direcionado à aquisição de imóveis usados. Quando o recurso tem origem na poupança, o teto caiu de 80% para 50% do valor do bem. No caso de dinheiro do Sistema Financeiro Imobiliário (SFI), a redução foi de 70% para 40%.
Análise semelhante tem o vice-presidente comercial do Sindicato da Habitação do Estado (Secovi-RS), Gilberto Cabeda. Pelos números da entidade, a valorização dos imóveis usados empatou com a inflação em 2014 e, neste ano, tende a perder. O crédito mais escasso e caro aliado aos limites mais baixos estabelecidos pela Caixa, entende Cabeda, devem fazer o número de negócios cair 10% em comparação ao ano passado, quando as transações já diminuíram em torno de 30%.
— O maior número de negócios ocorre com imóveis de até R$ 650 mil. Nessa faixa, pouca gente tinha disponibilidade de 20% do valor. Aumentando para 50%, essa classe média fica absolutamente prejudicada — diz Cabeda.
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Cidade mais em conta?
Recente pesquisa FipeZap para analisar a relação entre preço dos imóveis e renda mostra que, entre seis capitais brasileiras analisadas, Porto Alegre oferece, em tese, os apartamentos mais acessíveis para compra. No Rio, considerada a cidade mais cara, a relação é de 17,3. Ou seja, uma família carioca média levaria pouco mais de 17 anos para pagar um imóvel padrão de 70 metros quadrados. Em Porto Alegre, onde a facilidade seria maior, não chegaria a nove anos. Entre 34 cidades do mundo pesquisadas, Porto Alegre seria a quinta com a melhor relação entre renda e preço dos imóveis.
Em busca de recolocação
Dispensado após a obra do prédio onde trabalhava se aproximar do fim, o impermeabilizador Sergio Alberto Carvalho, 40 anos, não se assusta com o que os números da construção civil mostram. Para ele, demissão também não é novidade devido à alta rotatividade do setor. Única fonte de sustento da casa, Carvalho aposta que não fica sequer um mês sem trabalho.
— Acho que não está tão difícil assim. Tem é que ir atrás. É procurando que se acha — diz Carvalho, que na terça-feira foi ao Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias da Construção Civil da Capital (Sticc) homologar a demissão do emprego.
Para o presidente da entidade, Gelson Santana, o número maior de demissões é reflexo tanto da economia retraída quanto de possíveis dificuldades burocráticas para as construtoras lançarem novos empreendimentos. De janeiro a abril, a entidade contabiliza a homologação de 2,6 mil demissões, 4% a mais na comparação com o mesmo período do ano passado.
— Estávamos esperando até queda maior (no emprego) — diz Santana, que também atribui os números ao fim da etapa de obras civis em grandes empreendimentos como as ampliações da Refinaria Alberto Pasqualini, em Canoas, e da Celulose Riograndense, em Guaíba.
Na avaliação do Sinduscon-RS, o licenciamento de empreendimentos deixou de ser o principal empecilho para lançamentos.
Fonte: Site ZH Notícias