Democracia, conquista sem volta, requer cuidado permanente
Um antigo hábito da política estabelece certa “trégua” aos governantes em seus 100 primeiros dias de gestão. No caso de Dilma Rousseff, que chega a essa marca em 10 de abril, não houve calmaria. Uma combinação de erros de gestão, medidas impopulares, situação econômica difícil e sanha oposicionista, ainda com inconformismo pela derrota eleitoral, deixou o governo na defensiva. No final do mês passado, o Planalto anunciou medidas de combate à corrupção e acenou com diálogo, mas ainda enfrenta impopularidade e uma reação turbulenta com o Congresso. Fora e dentro do governo, a avaliação é de que o Executivo terá de se comunicar melhor e ouvir mais.
“No momento, qualquer coisa que o governo faça é ruim. O governo não está pautando a discussão, é uma reação. Perdeu a hora de sair a público”, diz o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP). Por outro lado, acrescenta, até por esse motivo não custa nada tomar iniciativas. “Se tiver sangue-frio e souber fazer nos meios adequados, adequar crítica, calúnia, aí tem boa chance de recompor”, avalia.
Cabe ao Executivo reorganizar seu diálogo com a população, afirma Janine. E ter paciência. “Rearticular a comunicação, mas não é chamando um marqueteiro. O governo tem de ter a convicção interna de que tem de prestar contas à sociedade. Vai ter de insistir muito nisso. Não falando, não justificando, ela (Dilma) deu espaço para crescer um descontentamento, absolutamente descontrolado.”
Ódio
As manifestações de março contra o governo tinham e têm motivações legítimas, mas incluíram uma carga extra de raiva. O que levou a jornalista Laura Capriglione a questionar: “O que leva pessoas educadas, profissionalmente bem colocadas, gentis no trato pessoal, a comparecer a um ato público contra a corrupção e para lá levar cartazes, faixas e rimas podres de cunho sexista e de ódio contra a presidente Dilma Rousseff?”
Ela faz referência ainda a uma “indecorosa” camiseta com estampa de uma mão com quatro dedos, vestida, entre outras pessoas, por Ana Eliza Setúbal, mulher de Paulo Setúbal, da família controladora do banco Itaú. “Teve grosserias para todos os gostos e estômagos.”
O cientista político André Singer, em entrevista à Rede Brasil Atual, chamou a atenção para a importância da mídia nesse processo. “Há um papel fiscalizador da mídia, apesar de todos os defeitos que ela possa ter, que é imprescindível. Tem que existir, e a democracia tem que ser forte o suficiente para enfrentar as denúncias, quando elas têm fundamento. Por outro lado, existe a questão de que a grande mídia tem uma tendência ideológica legítima, porém real, para posições mais conservadoras. Essa tendência tem que ser respeitada, mas, ao mesmo tempo, tem que ser notada. É preciso que o jornalismo perceba que pode causar um dano importante se dissolver instituições das quais a democracia brasileira necessita”, afirma, citando o PT, alvo dos protestos. “Não há interesse em dissolver o PT, nem o PSDB e diria, nem o PMDB, que são os três maiores partidos da democracia brasileira. É importante que o jornalismo se dê conta de que é preciso separar o joio do trigo.”
Assim, ele identifica riscos originados pelo “ódio” constatado em algumas manifestações. “Não vejo, do lado dos que estão no campo do PT, um ódio equivalente ao PSDB, nem nunca vi. Havia, e há, divergências. Se o PSDB voltar ao governo, suponho que o PT vai fazer uma oposição dura, como o PSDB faz. Isso é da natureza da democracia. Uma coisa é oposição dura, outra é você querer eliminar o adversário do campo. Vejo que, às vezes, há certa tendência a alimentar um ódio político que é malsão, que não é saudável para a democracia brasileira”, diz Singer.
Observadores de mídia e analistas viram na cobertura da Globo um estímulo à participação no 15 de março, contra o governo. O jornalista Rodrigo Vianna, do blog Escrevinhador, escreveu que a emissora usou “o seu poder de agitação” para chamar a manifestação. “A Globo foi a central de operações do dia 15.” Para ele, foi um “Diretas já às avessas”, para insuflar a população conta Dilma. Em 1º de abril, haveria uma manifestação para lembrar os 50 anos da Globo, com a avaliação de que a emissora foi beneficiada pela ditadura.
Ainda no terreno midiático, março reservaria um episódio curioso. A agência britânica Reuters publicou no dia 23 uma entrevista com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que trazia críticas ao seu sucessor, o também ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas o texto incluía uma referência negativa a FHC, seguida de uma observação, em parênteses: “Podemos tirar, se achar melhor”. O comentário indicava a possibilidade de ser suprimido justamente um trecho sobre corrupção no governo tucano. A Reuters disse que a frase foi publicada “inadvertidamente” e posteriormente retirada, lamentando “qualquer confusão causada pelo engano”.
Sem diálogo
Mais uma vez, as redes sociais foram cenário de confrontos. Até a cantora Pitty sofreu ataques, ao escrever: “Pressionar qualquer governo por melhorias sim, marchar ao lado de extremistas de direita, fanáticos religiosos e saudosos da ditadura JAMÉ”. Lembrou que não defendia o PT e disse ter recebido “um jogo de ódio irracional”, “diálogo zero, só ofensas preconceituosas”. Um internauta sugeriu que ela “voltasse para a cozinha” após “terminar o mimimi”. Ela respondeu: “Pois eu não volto pra cozinha, nem o negro pra senzala, nem o gay pro armário. O choro é livre (e nós também)”.
Fonte: RBA
