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    A Copa e a construção do sentido de povo

     

    Copa05

     

     

    Há mais de dez anos, quando eu era dirigente de entidade estudantil, organizamos um evento com o jornalista Carlos Heitor Cony, a fim de debater a proliferação de publicações especializadas na cobertura de futilidades e de problematizar a emergência, entre nós, de uma “cultura de massa”. O assunto havia adquirido especial saliência quando, em paródia à Revista Caras, Ziraldo e outros cartunistas lançaram a Revista Bundas, que mais ou menos um ano depois sairia de circulação por problemas financeiros.

    Como bons alunos da USP, nossa abordagem para essa questão era sempre um pouco na linha do que Antonio Prata teve a felicidade de batizar de “meio intelectual, meio de esquerda”. Por essas lentes, os produtos culturais que se disseminavam em nosso meio com grande velocidade e capilarização, como o axé e suas coreografias, eram um sintoma da degeneração dos hábitos culturais dos indivíduos e grupos sociais que, por sua vez, refletia a tendência de mercantilização da vida social subjacente ao neoliberalismo dos anos 1990.

    Para certa decepção de nossa parte, Cony não comprou integralmente aquela embocadura. Nem por isso, todavia, deixou de trazer elementos interessantes para o nosso debate. Um deles, que nunca mais me saiu da cabeça, foi a distinção que traçou entre os conceitos de “massa” (da expressão “cultura de massa”, que dava o mote de nosso evento) e “povo”. “Massa”, para o jornalista, remetia a algo que, embora conserve unidade, tem pouca consistência e, por isso mesmo, é facilmente moldável pela ação de forças externas.

    Já “povo” remetia a algo que não apenas tem unidade, mas também – e principalmente – tem um propósito e, por isso, é capaz de resistir à ação de forças externas e até mesmo de se impor frente a estas. Se há, portanto, algum problema na formação e propagação indiscriminadas de culturas de massa, depreendia eu das palavras de Cony, é que podem indicar a fragilidade de um conjunto que permanece incapaz de se dizer povo e, em consequência, a suscetibilidade desse agrupamento social a manipulações de toda ordem.

    Lembrei-me dessas lições antigas na memória quando, aquecendo-me para a abertura da Copa do Mundo de 2014, resolvi assistir novamente a cerimônia ocorrida na África do Sul, há mais ou menos quatro anos.

    A organização da Copa na África do Sul teve problemas iguais ou maiores do que mesmo os espíritos mais críticos encontrarão no Brasil. Se aqui se reclama da construção de estádios de grande porte em cidades que, em princípio, não têm times de futebol competitivos (se bem que os estádios não foram feitos apenas para abrigar jogos de futebol, dirá Dilma), na África do Sul estádios parecidos foram construídos em lugares em que sequer havia um mínimo de vida urbana. Como resultado, muitos deles estão inúteis ou têm sido até mesmo demolidos.

    “É uma forma de eliminarmos os custos de manutenção, ao mesmo tempo em que geramos algum emprego”, disse-me um amigo sulafricano, em nossa última conversa a respeito deste assunto, há cerca de um mês.

    Em relação ao da África do Sul, no entanto, o caso brasileiro tem diferença mais marcante que essa. É que, se aqui a preparação para o evento parece ter corrido em bases melhores, os sentimentos gerados sobre a Copa foram seguramente muito piores.

    Colaborou para isso a convergência inusitada de dois extremos ideológicos: um extremo (vamos dizer, sem receios, à direita do espectro político), que transita em meio a elites globais; e outro (reunindo parte da esquerda), mobilizado em defesa de causas populares.

    O extremo da direita procurou anunciar desde o princípio a inviabilidade da Copa, como o reflexo da incapacidade do Brasil para sediar um evento como esse. Estádios não ficariam prontos, aeroportos não teriam condições de receber visitantes, faltaria luz, enfrentaríamos epidemias de dengue.

    Parece haver mais em jogo aqui que uma convicção racionalmente formada ou mesmo o “complexo de vira-latas”: transformar a Copa na figura de linguagem que ilustra a nossa tendência ao fracasso é a maneira como este segmento encontra para afirmar sua condição distinta de quem frequenta restaurantes, hotéis, aeroportos e estádios “de primeiro mundo” (é bom questionar, a esse respeito, se a expressão “Imagina na Copa” teria se espalhado como se espalhou, se não houvesse sido incorporada no script de uma novela da Globo).