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Para 71% dos brasileiros, muito ricos devem pagar mais imposto
Enquanto governo finge combater privilégios com a reforma da Previdência, a população ensina o caminho para fazer isso de verdade. Ao invés de cortar direitos, tornar a tributação mais justa. Para 71% dos brasileiros, os muitos ricos devem pagar mais impostos para financiar educação, saúde e moradia. E, na contramão da política de redução do papel do Estado em curso no governo Michel Temer,79% acreditam que o combate às desigualdades é dever do Estado.
Os dados são da pesquisa “Nós e as desigualdades”, encomendada pela ONG Oxfam Brasil ao Datafolha. O instituto ouviu 2.025 brasileiros de todo o Brasil, entre 10 e 14 agosto de 2017. A margem de erro para a amostragem geral é de 2% para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%.
O levantamento demonstra que existe um amplo apoio da sociedade à ideia de que os governos têm a obrigação de trabalhar para diminuir as diferenças entre ricos e pobres. E não só: 82% dos brasileiros acreditam que os governos devem ter como prioridade diminuir a desigualdade regional e outros 82% creem que o governo deve transferir dinheiro público para que os Estados possam oferecer serviços públicos de qualidade.
O estudo também aponta que, ao contrário do que quer a Fiesp e seus patinhos de borracha na cruzada contra a ampliação da carga tributária, os brasileiros não são avessos a qualquer alta de impostos.
Segundo a pesquisa, apesar de 75% dos brasileiros se colocarem contra o aumento geral de tributos, o expressivo número de 71% dos entrevistados apoia o aumento de impostos para pessoas muito ricas, como forma de ampliar o financiamento público em áreas como educação, saúde e moradia. A Oxfam Brasil considera “muito ricos” aqueles pertencentes ao 0,1% da população, com ganhos a partir de 80 salários mínimos mensais.
Também para 71% dos ouvidos na pesquisa, quanto mais rica a pessoa, mais deve ser a proporção do imposto pago. Além disso, 72% avaliam que o governo deveria diminuir os impostos sobre os produtos e serviços que a população consome e compensar a diferença com aumento de impostos sobre a renda dos mais ricos.
A pesquisa desconstrói, portanto, a ideia de que o brasileiro é anti-impostos “por princípio”. Os dados mostram que uma reforma tributária que promova maior justiça fiscal teria o apoio da população.
Hoje, grande parte da estrutura tributária do país está baseada em impostos indiretos, ou seja, que incidem sobre o consumo de bens e serviços e não sobre a renda e a propriedade. Isso significa que, proporcionalmente, os mais pobres pagam mais impostos, já que possuem renda inferior, mas pagam o mesmo preço que os ricos por produtos e serviços.
Além do mais, toda a renda da população mais pobre é utilizada no consumo, enquanto uma parte importante da renda dos mais ricos acaba convertendo-se em riqueza e patrimônio, cuja tributação é menor.
De acordo com a Oxfam, o grupo que compõe o 0,1% da população brasileira tem 66% de isenção de impostos. Já a classe média – que recebe entre três e 20 salários mínimos -, tem apenas 17% de isenção, em média.
No seu relatório “A distância que nos une”, lançado em setembro, a ONG ressalta que a injustiça tributária tem reforçado a desigualdade no Brasil. O documento revelou que 5% da população tem a mesma fatia da renda nacional que os demais 95% e que apenas seis bilionários possuem riqueza equivalente ao patrimônio dos 50% mais pobre da população.
Estado em alta; meritocracia em baixa
O Datafolha também mostra que a opinião popular vai na direção oposta daquilo que o atual governo defende no discurso e na prática. Para a maioria dos brasileiros, as soluções para reduzir as desigualdades passam, sim, pela atuação do Estado. Portanto, é preciso mais ação governamental e, não, menos, como propõe e faz a gestão Temer.
Dentre as saídas oferecidas no questionário do levantamento para reduzir a distância entre rico e pobres, a maioria defendeu a oferta de empregos (71%), investimentos públicos em educação (67%) e a reforma do sistema político (61%). Em seguida, veio o aumento no investimento público em saúde (55%), redistribuição da carga tributária (25%) e expansão da assistência social (16%).
A pesquisa também perguntou aos entrevistados se, no Brasil, uma pessoa de família pobre e que trabalha muito tem a mesma chance de ter uma vida bem-sucedida que uma pessoa nascida rica e que também trabalha muito. A tese da meritocracia foi rechaçada, em algum grau, por 60% dos respondentes. Outros 55% não acredita que crianças pobres com estudo têm oportunidades iguais àquelas de crianças ricas.
A maioria dos brasileiros não acredita, portanto, no “esforço pessoal” como saída única para a redução de desigualdades, o que reforça a importância do papel do Estado.
Falta de horizonte e pessimismo com medidas de Temer
Apesar de avanços recentes no que diz respeito à redução de desigualdades de renda do trabalho especialmente nos governos petistas, ainda existe uma sensação geral de que a desigualdade entre ricos e pobres não diminuiu: 58% da população consultada acredita que nada ou pouco mudou.
O futuro também não parece melhor, para a grande maioria da população brasileira. Segundo a pesquisa, 66% não se diz esperançosa de que a diferença entre ricos e pobres irá diminuir, contra 31% de otimistas que acreditam em alguma melhora.
A baixa aprovação do governo Michel Temer também pode ser medida em uma das questões da pesquisa. Do total de entrevistados, 88% acreditam que a distância entre ricos e pobres não deve se alterar ou que irá aumentar ainda mais com as atuais medidas tomadas pelo governo federal.
Fonte: Vermelho